ESCAVACO - A BIOGRAFIA NÃO AUTORIZADA DO HOMEM PROVIDENCIAL
QUE VEIO AFUNDAR PORTUGAL


(Texto publicado em 1995 numa folha volante, de autoria anónima)

Esta história que vou contar

É de muita ilustração, muito estado:

Todavia leva verso de pé quebrado,

Que o assunto não merece de suar

E nem a forma de cuidado.

 

A ladaínha que vou recitar

Dirão os leitores que é mentira,

Pois é muito de espantar:

Dirão que é a imaginação do povo a trabalhar,

Que tudo torce e vira, não pode ser verdade:

“É decerto uma suja cabala, uma perversidade

Que a todos quer enganar!”

No entanto,  antes de formardes uma opinião

Deixai que vo-la diga até à conclusão:

Não vos desvieis por detalhes, observai a moralidade

Ela é que interessa, ela é que convém lembrar

E contar aos filhos para que não se repita

Tudo o mais, os acasos, os sucessos e os sarilhos,

De nada valem, só confundem e isso irrita:

Não passam de empecilhos.

 

Vou então começar:

Foi no Sul seu nascimento

E logo começou a falar

Pois era de tão precoce entendimento

Que  a primeira coisa que disse foi -  Rentabilizar!

 

( e eu escavaco, e eu escavaco
entre os fortes sou um fraco!)

 

O pai tinha uma bomba mas não era anarquista,

E viviam no paraíso ao lado do mar:

Tal memória sempre a marcar

O seu espírito positivista!

 

Sempre teve jeito com números

Em contas e gráficas era acertado.

Mas tinha um defeito, o desgraçado:

Era sem sorte com augúrios.

 

Fez um casamento à portuguesa

Sem pompa nem varonia:

Chamava-se sua mulher burguesa,

Simplesmente Maria

 

Vamos agora à universidade

Em que o nosso herói é professor:

Ele era doutorado com louvor

E como tal muito respeitado!

Ah fazia falta a Portugal

Um líder tão complementado!

 

(Disto não contem nada, mas parece

Que um erro o fez tremer no poleiro

Mas safou-se teve sor te ou fez uma prece

E encostou-se bem ao Pinheiro!)

Ali com muito esforço ensinou, ensinou

Mas, ah, como viva abatido:

- Os alunos não gostam de mim,

Não me dão atenção,

Não posso mais viver assim!

E então teve a ideia que o salvou:

- Vou inscrever-me no Partido

E ser professor da Nação!

 

Esta experiência no ensino

Abriu-lhe os olhos, fez-lhe ver muita verdade,

Inventou um verbo novo - eu propino!

Que depois haveria de conjugar…

( Mas isso é para mais tarde.

Este é só o início da glória:

Ainda falta muito para a Vitória!)

 

Calhou logo em ser Ministro

Da nossa frágil economia.

Que ele havia de ser primeiro-ministro,

Como outrora velho sinistro,

Ainda ninguém sabia.

 

Diz que teve mérito nesta pasta

Que destas coisa não entendo.

Só sei que é uma cosa incoerente:

Vem a borrasca e a bonança e a borrasca

É assim a economia sempre, sempre…

 

Naquele tempo a inflação amainava

Tal como desce, depois de subir, qualquer corpo;

De sorte que quando aquilo começou a dar para o torto

Ele já lá não estava!

 

Passou um tempo em que não se soube dele

Em que fazia política discretamente

Só voltou a ribalta quando partiu ele

Para a Figueira da Foz, e voltou presidente!

 

Levou um carro em rodagem

Para fazer essa viagem.

No entanto nem a acabou

Porque, quando voltou,

Obteve logo um carrão

De acordo com a posição!

 

(e eu escavaco, e eu escavaco…
Trata mas é de encher o saco!)

 

Vieram as eleições e foi eleito

Primeiro-ministro do país!

Oh, como ficou o povo satisfeito!

Ele veio para acabar com a rebaldaria

Enviado de alguém que lhe disse

Para endireitar a economia

 e acabar de vez com a trafulhice!

 

Parece que se enganou

O enviador com tal comendado

Se calhar o que desejou

Foi o contrário desse fado!...

 

A vitória foi clamorosa

E em todo o Portugal celebrada:

Moveu-se todavia a sorte sinuosa

A torná-la ainda mais dourada!

 

O que a sorte proporcionou,

Foi a moção de censura que o PRD

Em má hora espirrou,

em tempo de alergia sazonal,

Ninguém sabe bem porquê.

O tema não é importante:

O PRD era a sombra de um General

Que um dia fora Presidente!

 

Foi-se abaixo a minoria curta

E houve eleições outra vez

Parece que multiplicaram por três

Os votos, e deu maioria absoluta!

 

Houve então muita grita na sede do partido,

Muita alegria, muito alarido:

- Quem é o estado?

- Somos nós!

- Quem é o Partido?

- Somos nós!

- Quem tem a maioria?

- Somos nós!

- Então o que é que eu e tu podemos fazer?

- Vamos aspirar as coisas como pós!

- E o que é que tu e eu podemos fazer?

-Parem, parem! - Grita uma apoiante ansiosa-

- Já parecem o Abrunhosa!

 

Eleições houve também

Agora para Presidente

Da República. Mas a sorte não esteve bem

E ele não ficou nada contente!

 

Quatro se candidataram

E  luta foi intensa:

Ao fim só dois ficaram

E tinham muita diferença.

 

Um era todo fraternidade

E virava bem à esquerda,

( se bem que menos que antes

Oh, como são inconstantes!...)

O outro… Oh, o outro era seu compadre

E quem conheceriara  a perda.

Com aquele velho se parecia,

O que ficou mais tempo que  a lei dizia

E era meio frade!

 

Para se saber a personagem,

Contaram muitas patranhas

E fizeram muita sondagem;

Usaram de todas as manhas,

Muitas falas e deixas:

Acabou por ganhar o das bochechas!

 

(E eu escavaco, e eu escavaco
Passa para cá o taco!)

 

Ah, como este reino se tornou

Em reino de prosperidade

Com tal timoneiro!

De deserto em oásis se transformou,

Que se podia dizer com qualidade,

Que da Europa era aluno primeiro!

 

Essa Europa dava tanto dinheiro

Que ele não sabia onde aplicar:

Oh, não faz mal, não faz mal:

A questão não é de hesitar:

- Vamos guardá-lo no mealheiro

E usar na campanha eleitoral!

 

Este homem não é nabo

Não nos vende a alma ao diabo

Nem a Lúcifer ou Belfegor

Vende-nos à Europa, que é pior!

 

Disse – eu não saio daqui sem fazer

Uma obra de vulto e glória!

Farei um palácio tão belo

Para calar os velhos do Restelo!

Quero que fique de mim uma memória,

Que eu seja lembrado para a história.

Um palácio, quase um castelo,

Custou uma quantia irrisória,

(Paga pela Europa, ainda bem),

- o meu Lindo Centro Comercial de Belém!

 

(E eu escavaco, e eu escavaco
E não paro de aumentar o tabaco!)

 
A televisão privada foi questão

Muito fácil de resolver:

Um vai para Deus,

Que é cá dos meus,

E a outra ao amigo Balsemão

de presente vou oferecer!

 

Mas um dia a sorte tinha de acabar

Que a fortuna não dura para sempre:

Houve seca no Alentejo, começou a recessão,

Os preços a subir e salários a baixar,

O povo descontente a passar para a oposição…

Mas o pior foi aparecer o jornal Independente!

 

Havia um escândalo cada sexta-feira

E era logo um ministro a marchar:

 -Ah, o jornal não deixa coisa inteira!

Até quando me irei aguentar?

 

Começaram a surgir problemas a todo o tempo

A Saúde, a Educação, a OGMA e outros mais

Tanta coisa que não me resta um momento

Para ler os jornais!

 

(E eu escavaco , e eu escavaco,
E onde é que está o meu tacho?)

 

E se houver tempo deixem que vos conte

O caso do ministro ambicioso:

Quis enriquecer, aumentou a ponte

E deu com o povo em furioso!

 

Os camionistas fizeram um bloqueio,

Ocuparam as onerosas pistas:

Que o povo paga o imposto sem perder as cores,

Mas o dinheiro a sair do bolso, isso não!

Meteu-se a polícia no meio

A dispersar a concentração:

- Isto está cheio de agitadores

E são todos comunistas!

 

Foi então que ele viu

Que o caminho já não ia adiante:

"- Ah, mas como sou esperto e algarvio,

vou embora!", e eis que dasaparece o comandante

Antes de afundar o navio!

 

Vamos! Da sueca e das falcatruas

Levantem todos os olhos,

E assustem-se com o meu tabu!

Eu vou embora pelas ruas,

E levo comigo aos molhos

truques novos no meu baú!

 

- Não sei para onde vou!

É o que digo, e no entanto,

O psicodrama e o espanto

( e o segredo!) ainda não acabou…

 

NÃO! AINDA NÃO ACABOU!
HEI-DE ARRANJAR OUTRO CANTO!
data: 1995









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