Esta história que vou contar
É de muita ilustração, muito estado:
Todavia leva verso de pé quebrado,
Que o assunto não merece de suar
E nem a forma de cuidado.
A ladaínha que vou recitar
Dirão os leitores que é mentira,
Pois é muito de espantar:
Dirão que é a imaginação do povo a trabalhar,
Que tudo torce e vira, não pode ser verdade:
“É decerto uma suja cabala, uma perversidade
Que a todos quer enganar!”
No entanto, antes de formardes uma opinião
Deixai que vo-la diga até à conclusão:
Não vos desvieis por detalhes, observai a moralidade
Ela é que interessa, ela é que convém lembrar
E contar aos filhos para que não se repita
Tudo o mais, os acasos, os sucessos e os sarilhos,
De nada valem, só confundem e isso irrita:
Não passam de empecilhos.
Vou então começar:
Foi no Sul seu nascimento
E logo começou a falar
Pois era de tão precoce entendimento
Que a primeira coisa que disse foi - Rentabilizar!
O pai tinha uma bomba mas não era anarquista,
E viviam no paraíso ao lado do mar:
Tal memória sempre a marcar
O seu espírito positivista!
Sempre teve jeito com números
Em contas e gráficas era acertado.
Mas tinha um defeito, o desgraçado:
Era sem sorte com augúrios.
Fez um casamento à portuguesa
Sem pompa nem varonia:
Chamava-se sua mulher burguesa,
Simplesmente Maria
Vamos agora à universidade
Em que o nosso herói é professor:
Ele era doutorado com louvor
E como tal muito respeitado!
Ah fazia falta a Portugal
Um líder tão complementado!
(Disto não contem nada, mas parece
Que um erro o fez tremer no poleiro
Mas safou-se teve sor te ou fez uma prece
E encostou-se bem ao Pinheiro!)
Ali com muito esforço ensinou, ensinou
Mas, ah, como viva abatido:
- Os alunos não gostam de mim,
Não me dão atenção,
Não posso mais viver assim!
E então teve a ideia que o salvou:
- Vou inscrever-me no Partido
E ser professor da Nação!
Esta experiência no ensino
Abriu-lhe os olhos, fez-lhe ver muita verdade,
Inventou um verbo novo - eu propino!
Que depois haveria de conjugar…
( Mas isso é para mais tarde.
Este é só o início da glória:
Ainda falta muito para a Vitória!)
Calhou logo em ser Ministro
Da nossa frágil economia.
Que ele havia de ser primeiro-ministro,
Como outrora velho sinistro,
Ainda ninguém sabia.
Diz que teve mérito nesta pasta
Que destas coisa não entendo.
Só sei que é uma cosa incoerente:
Vem a borrasca e a bonança e a borrasca
É assim a economia sempre, sempre…
Naquele tempo a inflação amainava
Tal como desce, depois de subir, qualquer corpo;
De sorte que quando aquilo começou a dar para o torto
Ele já lá não estava!
Passou um tempo em que não se soube dele
Em que fazia política discretamente
Só voltou a ribalta quando partiu ele
Para a Figueira da Foz, e voltou presidente!
Levou um carro em rodagem
Para fazer essa viagem.
No entanto nem a acabou
Porque, quando voltou,
Obteve logo um carrão
De acordo com a posição!
Vieram as eleições e foi eleito
Primeiro-ministro do país!
Oh, como ficou o povo satisfeito!
Ele veio para acabar com a rebaldaria
Enviado de alguém que lhe disse
Para endireitar a economia
e acabar de vez com a trafulhice!
Parece que se enganou
O enviador com tal comendado
Se calhar o que desejou
Foi o contrário desse fado!...
A vitória foi clamorosa
E em todo o Portugal celebrada:
Moveu-se todavia a sorte sinuosa
A torná-la ainda mais dourada!
O que a sorte proporcionou,
Foi a moção de censura que o PRD
Em má hora espirrou,
em tempo de alergia sazonal,O PRD era a sombra de um General
Que um dia fora Presidente!
Foi-se abaixo a minoria curta
E houve eleições outra vez
Parece que multiplicaram por três
Os votos, e deu maioria absoluta!
Houve então muita grita na sede do partido,
Muita alegria, muito alarido:
- Quem é o estado?
- Somos nós!
- Quem é o Partido?
- Somos nós!
- Quem tem a maioria?
- Somos nós!
- Então o que é que eu e tu podemos fazer?
- Vamos aspirar as coisas como pós!
- E o que é que tu e eu podemos fazer?
-Parem, parem! - Grita uma apoiante ansiosa-
- Já parecem o Abrunhosa!
Eleições houve também
Agora para Presidente
Da República. Mas a sorte não esteve bem
E ele não ficou nada contente!
Quatro se candidataram
E luta foi intensa:
Ao fim só dois ficaram
E tinham muita diferença.
Um era todo fraternidade
E virava bem à esquerda,
( se bem que menos que antes
Oh, como são inconstantes!...)
O outro… Oh, o outro era seu compadre
E quem conheceriara a perda.
Com aquele velho se parecia,
O que ficou mais tempo que a lei dizia
E era meio frade!
Para se saber a personagem,
Contaram muitas patranhas
E fizeram muita sondagem;
Usaram de todas as manhas,
Muitas falas e deixas:
Acabou por ganhar o das bochechas!
Ah, como este reino se tornou
Em reino de prosperidade
Com tal timoneiro!
De deserto em oásis se transformou,
Que se podia dizer com qualidade,
Que da Europa era aluno primeiro!
Essa Europa dava tanto dinheiro
Que ele não sabia onde aplicar:
Oh, não faz mal, não faz mal:
A questão não é de hesitar:
- Vamos guardá-lo no mealheiro
E usar na campanha eleitoral!
Este homem não é nabo
Não nos vende a alma ao diabo
Nem a Lúcifer ou Belfegor
Vende-nos à Europa, que é pior!
Disse – eu não saio daqui sem fazer
Uma obra de vulto e glória!
Farei um palácio tão belo
Para calar os velhos do Restelo!
Quero que fique de mim uma memória,
Que eu seja lembrado para a história.
Um palácio, quase um castelo,
Custou uma quantia irrisória,
(Paga pela Europa, ainda bem),
- o meu Lindo Centro Comercial de Belém!
A televisão privada foi questão
Muito fácil de resolver:
Um vai para Deus,
Que é cá dos meus,
E a outra ao amigo Balsemão
de presente vou oferecer!
Mas um dia a sorte tinha de acabar
Que a fortuna não dura para sempre:
Houve seca no Alentejo, começou a recessão,
Os preços a subir e salários a baixar,
O povo descontente a passar para a oposição…
Mas o pior foi aparecer o jornal Independente!
Havia um escândalo cada sexta-feira
E era logo um ministro a marchar:
-Ah, o jornal não deixa coisa inteira!
Até quando me irei aguentar?
Começaram a surgir problemas a todo o tempo
A Saúde, a Educação, a OGMA e outros mais
Tanta coisa que não me resta um momento
Para ler os jornais!
E se houver tempo deixem que vos conte
O caso do ministro ambicioso:
Quis enriquecer, aumentou a ponte
E deu com o povo em furioso!
Os camionistas fizeram um bloqueio,
Ocuparam as onerosas pistas:
Que o povo paga o imposto sem perder as cores,
Mas o dinheiro a sair do bolso, isso não!
Meteu-se a polícia no meio
A dispersar a concentração:
- Isto está cheio de agitadores
E são todos comunistas!
Foi então que ele viu
Que o caminho já não ia adiante:
"- Ah, mas como sou esperto e algarvio,
vou embora!", e eis que dasaparece o comandante
Antes de afundar o navio!
Vamos! Da sueca e das falcatruas
Levantem todos os olhos,
E assustem-se com o meu tabu!
Eu vou embora pelas ruas,
E levo comigo aos molhos
truques novos no meu baú!
- Não sei para onde vou!
É o que digo, e no entanto,
O psicodrama e o espanto
( e o segredo!) ainda não acabou…