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TERROR NO
CALL CENTER
1º EPISÓDIO
( INTRODUÇÃO)
Estes trechos de vida real são ilustrações da incoerência do trabalho temporário, a prova da sua intrínseca vileza e um alerta aos tribunais, à ASAE e aos profissionais de saúde sobre as consequências nefastas para a pessoa humana que neste sistema laboral sobrevive. São testemunhos e experiências reais que ocorrem no contexto do trabalho temporário (que o nosso direito miserável permite), as denúncias as más práticas das empresas e trabalho temporário e apontar a tiro digital a cumplicidade silenciosa das grandes empresas como a PT, Instituições Bancárias, Seguradoras, SONAE e outras.
- O que é o trabalho temporário e a sua intrínseca vileza.
No passado não existia trabalho temporário mas a sua estrutura actual remonta à época em que havia indivíduos que recrutavam outros para o trabalho, os engajadores, os ganhões, etc. Ainda no século XX era uma prática corrente no Alentejo.
Numa perspectiva marxista, os ganhões são os que vendem a força de trabalho de outros indivíduos. São semelhantes aos captores e negociadores de escravos.
Actualmente o trabalho temporário domina nos empregos desqualificados/part time ou transitórios. Construção civil, escritórios, call centers, inserção de dados, etc.
(Pobre da geração de estudantes que foi obrigada a pagar as suas propinas com o proventos do TT.)
A bem dizer, uma empresa de TT é uma empresa de mentalidade feudal que atenta criminosamente aos direitos humanos e à dignidade do indivíduo Curiosamente uma delas tem nome de “ SERVUS”. Nada como chamar os bois pelos nomes.
As empresas de trabalho temporário oferecem recursos humanos baratos a empresas respeitáveis, multimilionárias e cotadas na bolsa para estas preencherem os escalões mais baixos dos colaboradores com os ditos recursos, que são pessoas afinal. É a terciarização do trabalho no sentido de poupar custos de integração na empresa contratadora (o que se chama entrar para o quadro, torna-se efectivo). É a negação do direito à protecção da saúde e dos demais direitos que o trabalho devia conferir.
A empresa contratadora paga à empresa de TT um valor fixo por cabeça de trabalhador. A empresa de TT paga retira uma comissão desse valor, a sua mais valia da venda de recursos humanos, e entrega um restante ao trabalhador temporário. Este valor é a chamada “ ração de sobrevivência do cidadão” o que permite apenas que ele se mantenha alimentado, vestido e limpo, porque doutra maneira ele não serviria para nada se fosse, faminto, roto e sujo.
O operariado industrial do sector secundário tem-se reduzindo no Ocidente com a deslocalização da indústria para o Oriente da mão-de-obra barata.
O operariado das Tecnologias de Informação é o novo operariado do sector dos serviços.
- O recrutamento e
selecção.
As empresas de TT esforçam-se para seleccionar os empregados da forma mais ridícula possível, e há muitas.
- Sucessão de entrevistas: chega até três o número de entrevistas individuais/colectivas/sessões de testes psicotécnicos/dinâmicas de grupo para avaliar um recurso humano.
Regra TT 1: Quanto mais básica for a
função a exercer, mais elaborados
são os procedimentos de selecção/testes e
entrevistas a que o indivíduo está
sujeito.
Curiosamente, alguns os trabalhadores das empresas de TT são estagiários de cursos ligados à gestão de recursos humanos, ou seja, eles mesmo são temporários. Como são inexperientes, são ridículos. Alguns entrevistam e escrevem notas ao mesmo tempo como uma criança da 2ª classe que está a escrever um segredinho. A maior parte assume uma atitude soberana e altiva como se o seu poder fosse importante.
Sucedem situações engraçadas nessas entrevistas. Era um género de prova escrita de inglês. Mas esta tinha um erro ortográfico curioso: queriam escrever “assess” ( perceber/avaliar) e escreveram asses ( rabos, cus). O entrevistado nunca soube se este erro era propositado para o testar diante da confusão entre rabos e avaliações. Apontou este erro no teste, para que eles percebessem com quem estavam a tratar. Depois veio a entrevista com a fabulosa gerente da empresa TT. Agradeceu a observação ortográfica ao entrevistado, perguntou-lhe a opinião sobre a empresa de TT dela e depois afirmou que não tinha ocupação para alguém com qualificações elevadas.
Regra TT 2 – quanto mais alta for a
qualificação académica do
trabalhador, mais dificuldade tem de obter colocação.
- O Duplo currículo
Antes da primeira entrevista, as empresas de TT solicitam envio do currículo mas depois obrigam preencher uma ficha cujas perguntas reproduzem exactamente o esquema do currículo. É para ver se temos boa memória do nosso currículo.
- A Contabilidade
Houve uma situação estranha que sucedeu na TUTELA – os ordenados dos colaboradores, relativos a um mês de trabalho com as mesmas horas nunca batiam certo! Uma estranha flutuação ocorria sistematicamente.
Regra TT 3 – Cuidado com os erros de contabilidade nos
ordenados.
- Os Contratos: a regra do jogo é o trabalhador possuir o mínimo de garantias de futuro – assim os contratos podem ser de seis meses, mensais ou semanais nos piores casos. Deve ser um estímulo à produtividade.
A lógica subjacente a este sistema é a seguinte: vamos supor uma empresa de seguros que contrata uma contabilista. Ao fim de uns anos de trabalho a lei obriga a que essa contabilista tenha direito a contrato efectivo sem termo. Ora o que faz a empresa de seguros para que o trabalhador temporário não passa a efectivo – despede-o e no próprio dia volta a contratá-lo!
É por assim dizer um reset do cadastro profissional do colaborador. E isto acontece com empresas que se consideram dignas de respeito e que aparentemente valorizam as boas práticas. São hipócritas!
- O ambiente de trabalho.
No caso em que me alongarei, ficará provado que o trabalho temporário produz um ambiente profissional propício a doenças mentais. É lugar de exploração, de vício das relações humanas, de inveja e competição.
Imaginem uma tragicomédia em que todos os actores procuram levar os seus papéis ao máximo, em que os bons são degradados e corrompidos e os maus elevados às posições de chefia.
Há depois o problema da chefia intermédia. No caso do call centers os coordenadores, os responsáveis de equipa, o controle de qualidade, outras pequenas posições burocráticas são ocupadas por antigos telefonistas a brincar aos gestores de equipa (há que dizer também em abono destes que as empresas não lhes fornecem formação de gestão de equipas, o que só pode dar mal resultado). A maioria ensoberbece-se pela vaidade da promoção profissional, torna-se petulante e arrogante com os antigos colegas que se mantém telefonistas. É preciso também dizer que a estas posições de chefia intermédia não sobem os competentes, os esforçados. Não, a estas posições sobem as/os sedutores, as/os decorativos, as/os amiguinha/os do formadores e os lambe botas em geral. E também quem mantém relações amorosas com outras chefias. Mas não nos alonguemos muito nisto das promoções.
PROXIMO EPISÓDIO DO TERROR DO CALL CENTER:
AS AVENTURAS NO CALL CENTER DA TMN PATROCINADA PELA EMPRESA DE TT ADECCO
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